terça-feira, 29 de junho de 2010

Conversas na mesa da cozinha

Mesas da cozinha nao ganham o valor que merecem. Afinal, quantas conversas, quantos episodios, quantas experiencias ela nao abriga?

Lah em Taiwan, a mesa da primeira familia era separada da cozinha por uma bancadinha, em que ficavam uma bandejinha com macas, laranjas e temperos, untensilios domesticos, um forninho eletrico. Era uma mesa quase quadrada, com quatro lugares, do lado de um movel com a maquina de fazer arroz branco, a garrafa de agua e as canecas da familia, e gavetas com remedios, tesouras, livretos...

O jantar em familia nao era todo dia. Cada um tinha seu horario, entao de dia de semana, quando a gente nao ia ao mesmo restaurante de sempre (em que eu comia estomago de vaca com o maior gosto, sem nem desconfiar do que estava pondo na boca), eu geralmente dividia uma "lunchbox" com o pai. A gente conversava sobre o dia, sobre chines, sobre a familia, sobre a reuniao de intercambio a que ele foi... ele gostava de conversar, sempre no seu jeitinho engracado de pai atrapalhado, com ingles estranho e chines muito rapido pra mim. Eu ria e contava do meu dia, enquanto disfarcava e colocava de lado as comidas que nao gostava.

As vezes quem voltava pra casa antes era a mae ou o Johnny, e ai o esquema era outro, era eu tentando a custo estabelecer uma conversa. "Como foi o seu dia?", e a resposta mais frequente era "nada de especial", com variacoes pra "ocupado" e "cheio". Essa pergunta nao eh bem uma tradicao taiwanesa, de qualquer jeito, mas eu ficava feliz quando conseguia alguma resposta mais variada. De vez em quando o Johnny me falava de alguma coisa do dia dele, ou soh falava que nada tinha acontecido, com um sorriso timido, sempre acabando a historia com "yeah", e eu conseguia dar umas risadas, e ate faze-lo rir tambem.

De fim de semana era mais facil uma refeicao em familia, geralmente com os mesmo pratos, e ai era um momento mais de escuta... pois a conversa era toda em chines! Eu me enterrava na minha tigelinha e ficava triste de nao poder participar, mas bom, eh a vida. Morria de vergonha quando o pai me perguntava algo em ingles e respondia toda sem jeito. A intencao dele era boa, mas eu me sentia envergonhada do mesmo jeito.


A mesa da segunda familia era dentro da cozinha mesmo, uma mesa comprida, jah que haviam tantos moradores. Uma geladeira grandona logo ao lado, a maquina de arroz branco perto da pia, um TV de plasma logo em frente. A mae geralmente sentava na cabeceira, mas nem sempre jantava com a gente, era ocupada. Quando jantava, assistia a Tv, e interrompia pra dar alguma bronquinha nas filhas, estrangeiras ou nao. Uma vez ficou com a gente, estudando pra prova de chines, depois do jantar. As vezes cozinhava, e muito bem, mas na maioria do tempo era a empregada, com uma comida deliciosa mas sem muita criatividade (a gente acabava comendo a mesma comida todo dia por uma semana e meia). Geralmente jantavamos eu, Corinna (a alema), o avo e a irmazinha, todos com os olhos fixos na tv. A conversa nao era muita, como foi o seu dia, jah viu esse filme, legal esse desenho. Dependia muito do humor da irmazinha, na verdade. A gente nao entendia porque que ela era tao mal humorada com a gente quase sempre, talvez ciume, talvez raiva porque estudava tanto e a gente nao... o fato eh que a gente nunca conversava entre a gente quando ela estava lah.

Conversas de manha nao existiam, a gente tinha que se concentrar em comer rapido pra nao chegar atrasada, o que quer dizer que eu sempre recebia uns olhares apressadores na minha direcao. A comida ou era da lojinha de cafe da manha ali do lado, deliciosa, ou algum resto do jantar. A gente vibrava quando era curry, nao tanto quando era peixe. Mas isso no comeco, quando a mae ainda ligava. Depois de um tempo, ela meio que mandou a gente se virar, e dali pra frente a gente ia na lojinha de cafe da manha todo dia.

O irmao mais velho vinha bastante, principalmente de fim de semana, sentado na mesa da cozinha assistindo a um filme. Conversas amenas, explicacoes. Guerrinha de casca de mexerica, ajuda quando eu precisei.

Eu e a Corinna conversavamos bastante por ali. Depois do jantar, revezando pra lavar a louca, num lanchinho da noite, numa tarde de domingo preguicoso, conversavamos sobre a vida, sobre o intercambio, sobre os intercambistas. A gente sentava e contava sobre o nosso dia, e o que mais estivessemos querendo, ou precisando, contar, e ai a nossa confianca e intimidade foi crescendo. E continuou quando, na transicao da segunda pra terceira familia, fomos juntas pra minha primeira familia, duas semanas dividindo a mesa quase quadrada, com uma cadeira colocada ali do lado, apertado, mas cabia.


A mesa da terceira familia era logo do lado de fora da cozinha, numa salinha de jantar aberta pra sala de estar, com uma lampada amarela no topo, e uma estantezinha atras. E uma bancadinha ali do lado, com a maquinha de agua quente, os copos e algumas tigelas, e uma geladeira logo ao lado, da qual a mae pegava os temperos e acompanhamentos. A maquina de arroz branco ficava dentro da cozinha.Um espacinho bem familia, bem aconchegante, bem de lampada amarela mesmo. Nao passei tanto tempo nessa mesa quanto nas outras. Era a ultima familia, meus ultimos dois meses ali, queria mais era sair e voltar mais tarde. Mas o pouco tempo passado rendeu bons momentos.

Fotos de familia e as respectivas historias. As fotos do casamento, "que fotografo ruim! toda foto da mae, ela tah olhando pra baixo!". Eles riram "nao, eh assim mesmo, naquela epoca, a noiva tinha mesmo que se fazer de timida". "Olha aqui, essa eh a irma mais velha quando era bebezinha. Ela tah nessa boia no rio Tal... e olha essa aqui, sou eu e a mae no mesmo barco, logo que a gente se conheceu. Esse rio foi muito importante na nossa vida... eu tinha a sua idade e gostava de ir lah nadar". Poxa, eu queria ter um rio importante na minha vida...

Frutas dividas, quase toda noite, mangas cortadinhas, laranja, e alguma frutas taiwanesas que eu adorava. Conversas amenas, como foi o seu dia? "Nada de especial" a mae sempre respondia. Perguntar "tudo bem?" todo dia nao eh mesmo uma tradicao taiwanesa. O pai jah elaborava um pouquinho, hoje tive reuniao, tal. A irma dizia que foi bom, e dava um sorriso... que eu soh consigo classificar como um sorriso "maduro". Eu jah contava meu dia com detalhes, contava as coisas engracadas como se contasse uma historia, comentava algo bobo que tivesse feito (sempre havia alguma coisa). Algumas perguntas, muitas sobre chines. Risadas quando, perguntando o nome da fruta, entendi algo como "fruta apaixonada".
Conversas nas vozes macias dos pais, na voz "sorriso maduro" da irma, na voz animada da intercambista, em chines, sempre em chines, com muuuitas paradas para explicar o significado desta ou desta palavra.


A mesa da minha casa, pra quem nao conhece, eh branca, assim como o resto da cozinha. Nao tem maquina de arroz branco, mas tem filtro, geladeira, armario dos lanchinhos. Eh uma cozinha gelada, ruim de pisar quando tah frio. Tem um puxa-saco em forma de cozinheiro, e a gente briga pelo nome dele. Meu pai e meu irmao insistem no absurdo nome "Pierre", enquanto eu e minha mae ficamos com o mais plausivel "Luigi". A mesa eh mesmo feita pra quatro pessoas, mas a gente aperta cinco, com convidados, ou com um filho intercambista, quando estava por aqui. A gente passa boa parte do tempo em casa por ali, todos juntos, sozinhos, com amigos, e eu nunca deixo amigo nenhum lavar a louca.

Boas conversas compartilhadas por ali, como foi o seu dia, como estao as notas, aonde voce vai amanha? Experiencias trocadas, brigadeiros divididos, pipocas estouradas. Conversas amenas e papos cabeca, sobre outras dimensoes, espaco-tempo, energia e polaridade, Deus e anjos, e o que mais aparecer.
As vezes aparecem briguinhas, mas, bom, eh a vida certo?


Mesa da cozinha eh algo fundamental na poesia de uma vida.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

E ai tem aquele medo

De nao ser o bastante.
De que eu acabe decepcionando-os, e que eles levantem e vao embora.

Medo antigo, na verdade.
Sem nem direito de ser postado aqui, nada a ver com um blog de viagens.

O tal blog, na verdade, deveria ser terminado, jah que a viagem acabou... certo?

Hmm... nao. Ainda tem muita historia que nao foi contada, muitos aspectos daquele mundo distante que nao foram abordados.

Vou continuar com esse blog. Ate porque, a propria vida acaba sendo uma grande viagem... feita de passos, paradas... e medos.

Eu nao gosto de ser preguicosa. Ou distraida.
Na verdade, ateh que gosto sim... sou eu, afinal de contas.
Eu nao gosto de ter medo de ser quem eu sou. Nao gosto de ter medo de nao ser o bastante, ate porque isso nao faz o menor sentido. "Para com isso. Voce tem que se dar valor, ou ninguem mais vai dar. Voce tem que se amar, antes de tudo... senao, como vai querer que outros te amem? Se nem voce o faz?" Eh isso que eu falo quando alguem vem com esse problema. Eu disse isso pra ele. Muito sofrimento, ainda agora, mas um "thank you", varios, varios thank yous, proferidos ou lidos. Nao tenha medo de ser voce.
Como pode eu dizer pra outros uma coisa que nao faco?
Ate porque, se tive essa conversa, essas conversas, eh porque alguem gostou de mim. Voce eh o bastante. Soh precisa nao se esconder. E se alguem nao gostar, bem, ha quem goste. Voce gosta de voce mesmo.

Falei pra ele "thank YOU". Voce que me mostrou que eu nao preciso ter medo de ser eu mesma. Porque eu podia ser eu mesma com voce, e voce gostou de mim. Thank you, obrigada.

O que eu tenho medo eh de... nem sei. Acabar brigando, ficar sozinha? O velho medo humano, acho eu.
Eu sei que erro. Sei que de vez em quando dah uma preguica, e fica aquela coisa "ah, depois eu respondo, depois eu ligo". Depois, depois nao eh bom. Depois talvez nem chegue. Tenho medo que a pessoa se canse dos meus "depois" e nem se importe mais. Eu sei que erro.
Mas tambem sei que todo mundo erra. E se o meu amigo nao puder entender isso, serah que eh meu amigo mesmo? Se eu nao posso me perdoar... serah que sou amiga de mim mesma?

Eu nao quero mais ser assim.
Aprendi que tenho muito a mostrar, aprendi que posso contar comigo mesma. Olha ai, a tal viagem se faz presente.
O meu problema eh que me encontro, ainda agora, com medo de nao ser o bastante.


Conversas e reflexoes em Taiwan: we should try to do our best, not to be the best.

Okay, then.